Eu sempre tive essa sensação estranha de que não existe começo ou fim; como se Deus fosse um químico com amnésia, que não sabe de onde veio nem como foi criado (porque certamente se ele soubesse, saberíamos também nós) e repete, numa velocidade insana: "Na natureza tudo se cria, nada se perde. Tudo se transforma." Talvez tenhamos criado essa noção de começo e fim ao observarmos nascimentos e mortes (se é que de fato temos essa habilidade). Vai saber. Pra mim, sempre foi como se eu estivesse passando pelo ad infinitum. Hoje, é como se eu, eu mesma, sempre tivesse existido.
A forma de enxergar o mundo mudou. Drasticamente. Passei a reconhecer-me nos outros, nas coisas do mundo e a saber-me inexistente de qualquer heroismo. Minhas margens desapareceram da minha vista. Foram-se, ofegantes, retornar à moradia primeira. O "eu" se misturou ao "eles", "elas", "tu", "nós". Se algum dia estive apenas em mim, não o estou mais.
Já devo ter dito, em cartas outras, o quanto o idêntico é vital aos japoneses. Aqui acho que nunca existiu o "eu", apenas o "nós". E não se engane, não se trata de coletividade calorosa, compaixão, empatia, ou qualquer vislumbre de que o mundo pulsa além (e aquém) de sua própria batida. Não. Na terra do sol nascente eles não sabem o que é ser si mesmo. Aqui se nasce, se vive e se morre em silêncio.
Um silêncio que me grita todos os dias: "você não é um deles!".
Acho complicado fugirmos do similar. Entre frases, amores, risos, empregos e rotinas, passamos todos pelo idêntico linguajar dos conceitos. O mundo das palavras é um só: caminho é caminho. Idênticos em escrita, e nela apenas. Afinal de contas demos um uso diferenciado às palavras. Criamos pronuncias, sotaques, diminutivos, trejeitos. E reinventamos, a cada instante, o contexto em que estarão inseridas. Teu "caminho" te lembra arbustos, enquanto o meu se reparte em mil pedaços. O idêntico é pura demagogia.
Não lhe é estranho passarmos uma vida inteira tentando ser únicos, quando sempre o fomos desde o gozo? E mesmo que instistamos a buscar, em terras outras, nossa imparcial importância... a quem queremos impressionar? Em qual pedra tentamos cravar nosso nome? Quem escolhemos pra contar nossa estória? Por quem queremos ser lembrados?
"... acreditar em algo grande que mude nossas vidas...", me disseram essa semana. Talvez Linus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel, possa dialogar com essa sentença ao dizer que "para ter uma boa idéia, primeiro você tem que ter várias idéias." É preciso se criar escolhas, divergir, desatar-se dos laços de genialidade e buscar, consciente, o raro encontro da preparação com a oportunidade, ao qual chamamos de sorte.
Leia mais um teco...
A forma de enxergar o mundo mudou. Drasticamente. Passei a reconhecer-me nos outros, nas coisas do mundo e a saber-me inexistente de qualquer heroismo. Minhas margens desapareceram da minha vista. Foram-se, ofegantes, retornar à moradia primeira. O "eu" se misturou ao "eles", "elas", "tu", "nós". Se algum dia estive apenas em mim, não o estou mais.
Já devo ter dito, em cartas outras, o quanto o idêntico é vital aos japoneses. Aqui acho que nunca existiu o "eu", apenas o "nós". E não se engane, não se trata de coletividade calorosa, compaixão, empatia, ou qualquer vislumbre de que o mundo pulsa além (e aquém) de sua própria batida. Não. Na terra do sol nascente eles não sabem o que é ser si mesmo. Aqui se nasce, se vive e se morre em silêncio.
Um silêncio que me grita todos os dias: "você não é um deles!".
Acho complicado fugirmos do similar. Entre frases, amores, risos, empregos e rotinas, passamos todos pelo idêntico linguajar dos conceitos. O mundo das palavras é um só: caminho é caminho. Idênticos em escrita, e nela apenas. Afinal de contas demos um uso diferenciado às palavras. Criamos pronuncias, sotaques, diminutivos, trejeitos. E reinventamos, a cada instante, o contexto em que estarão inseridas. Teu "caminho" te lembra arbustos, enquanto o meu se reparte em mil pedaços. O idêntico é pura demagogia.
Não lhe é estranho passarmos uma vida inteira tentando ser únicos, quando sempre o fomos desde o gozo? E mesmo que instistamos a buscar, em terras outras, nossa imparcial importância... a quem queremos impressionar? Em qual pedra tentamos cravar nosso nome? Quem escolhemos pra contar nossa estória? Por quem queremos ser lembrados?
"... acreditar em algo grande que mude nossas vidas...", me disseram essa semana. Talvez Linus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel, possa dialogar com essa sentença ao dizer que "para ter uma boa idéia, primeiro você tem que ter várias idéias." É preciso se criar escolhas, divergir, desatar-se dos laços de genialidade e buscar, consciente, o raro encontro da preparação com a oportunidade, ao qual chamamos de sorte.
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Monday, February 15, 2010 |
Category:
Pensamentos
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